
Já não é novidade nenhuma: a Sport TV 3 viu o seu primeiro PPV da UFC a estrear Domingo de madrugada, pelas três da manhã, em alta definição, e em HD.
Diga-se, desde já, que foi uma excelente aquisição da parte do canal, e ainda por cima com um excelente cartaz. Foi uma jogada estratégica da Sport TV adquirir este conteúdo "premium", visto que a UFC vai ganhando cada vez mais força no nosso país.
Seria de pensar que talvez fosse possível fazer o mesmo com os PPVs da WWE (que já são comentados em português), mas há uma grande diferença entre haver uma emissão na madrugada de Domingo, e outra na madrugada de Segunda...
Felizmente, aqui não temos que escolher, conforme já referi num post passado. Ao passo que nos EUA, os americanos têm de desembolsar 35€ por cada PPV, aqui com 20 e muitos por mês para o pack Sport TV, fica a festa feita.
O conteúdo funciona, o horário também... Resta apenas a delicada questão dos comentários em português.
Sou um pouco suspeito ao falar desta matéria, dada a minha qualidade de comentador do SmackDown na TVI... em português. Nem quero, tão pouco, ser mau "colega" do meio de comunicação, e desmanchar o trabalho do João Bacalhau e Pedro Rodrigues, comentadores da 126ª edição do UFC. Mas há, de facto, algumas sugestões que eu tenho a fazer, que penso que se chegarem aos ouvidos certos,
todos (e friso esta palavra) temos a ganhar.
A Questão da Língua de CamõesJá me pronunciei acerca disto várias vezes ao longo do percurso deste blog. Acho lamentável o quanto temos vergonha da nossa língua. Ele é novelas, ele é músicas, ele é comentários na TV... De alguma forma, conseguimos, enquanto espectadores/ouvintes/receptores antipatizar sempre com a língua que nos é nativa, e que por sinal, é das mais bonitas e mais completas de toda a Europa. Mas a verdade é que vivemos num ciclo vicioso: primeiro criticamos o que vem de fora, mas também não conseguimos viver sem isso. E depois, não queremos outra coisa. É uma questão de mentalidade da nossa cultura, não há nada a fazer.
Neste caso, antipatizamos, de modo geral, com os comentadores, como se estes não soubessem a matéria, e como se não levassem já alguma preparação feita para um determinado programa. Preparar um SmackDown não é nada do outro mundo... Mas dá trabalho. Imagino que também dê para os restantes programas da WWE na Sport TV, e igualmente para o UFC.
Porém, a grande maioria das vezes o problema não está no português; está noutro aspecto.
It's Live!Não deve ser tarefa fácil comentar um PPV em directo, três horas seguidas, das três até até às seis da manhã. Repito: PPV. Directo. Três horas a fio. Às tantas da madrugada. Há que ser justo, e dar o devido reconhecimento. O cansaço é maior, a concentração acaba por pecar um pouco, e assim os comentários sofrem de igual forma. Mas feliz, ou infelizmente, é o único modo de os fãs da UFC sequer terem um PPV em directo, sem ser por sites de
streaming manhosos, (e altamente ilícitos).
Mas uma questão que cabe, tanto à produção, como aos comentadores, é darem
emoção à coisa. É insuportável estarmos a ver um PPV em directo, de MMA, às tantas da manhã, com dois atletas de alta competição a espancarem-se, e cá em casa sermos obrigados a ouvir o volume da plateia e do "
Octógono" no mínimo, com especial destaque dado aos comentadores, que falam com a emoção de quem está a ver um jogo de golfe, ou uma partida de póquer.
Não funciona.Numa escala mais pequena, bem diferente do problema da mentalidade e da nossa receptividade à nossa própria língua, está a descrição do trabalho para o qual todos nós, profissionais de comunicação, somos chamados a fazer: "Comentários". Nós não fazemos comentários. Não devia ser essa a descrição. Especialmente no que toca a desportos de alta adrenalina. "Narração" é o termo mais correcto, no qual todos nos devemos basear.
Nós somos a voz
do público,
para o público. Cabe ao espectador lá em casa sentir cada palavra nossa no calor da acção, como sente cada golpe desferido. Os comentários vêm depois, nos momentos mortos, em momentos de observação, de ponderação, ou até de algum humor e crítica. Tal como os atletas que se encontram no ringue, ou no Octógono, temos de ser
story-tellers. De que outro modo tencionamos cativar o espectador? Com uma análise fria e científica? Este público em especial quer ver "pancada", não quer ver um documentário.
Este sim, já é um problema que está ao alcance dos poucos profissionais que praticam "comentários" de desportos de combate mudar. Ouçam o JR. Ouçam o Michael Cole. Ouçam o Joe Rogan. Reparem na emoção que eles trazem consigo para o mais medíocre dos combates. Zanguem-se com o técnico de som, digam-lhes que querem ouvir na mistura os gritos da plateia e dos murros na cara, e ponham-se no meio da acção. It's
LIVE!Palavras... para quê?Um aspecto que eu tenho a louvar da parte da dupla que comentou o UFC 126, foi porem o espectador a par do funcionamento das regras, e dos combates. É um bom chamariz, para quem viu casualmente o evento pela primeira vez, e que talvez tenha ganho interesse pelo conteúdo. Com um pouco mais de informação relevante fora do ringue, os comentários teriam ficado mais completos, mas isso, entendo, é um "work in progress". Afinal, esta foi a
primeira emissão.
Mas também há espaço para deixar respirar. Uma larga percentagem da nossa população percebe inglês, nem que seja a um nível mínimo. É bom haver uma "dessaturação" pontual, e ouvir o que os lutadores têm a dizer nas promos (em especial, os brasileiros, que se percebe perfeitamente), e sobretudo, não passar para segundo plano os nomes habituais de referência do programa, como Michael Buffer, ou até o Mike Goldberg e o Joe Rogan.
Respeitem que os
fãs da UFC têm um relacionamento emocional, (se assim quisermos chamar) muito especial com estas personalidades/personagens, e que os queremos ouvir, mesmo que só compreendamos metade. (Afinal, ficamos a perceber o mesmo, ou mais, se sacarmos o PPV da "net"). Há espaço para os verdadeiros "comentários" logo a seguir.
Em SumaHá que dar um grande desconto, e há que deixar crescer. Foi o primeiro trabalho de dois novos comentadores que se estrearam na tarefa ingrata de "comentar" (narrar!) um UFC.
Mas a competição é feroz, e a Internet não pára. No dia a seguir ao evento, são literamente milhares de pessoas que estão a partilhá-lo na net, e está no computador de quem o queira num espaço de horas, ou até menos do que isso, e num horário perfeitamente acessível a todos, ao contrário de um directo que só começa às três da manhã.
MMA está em crescimento no nosso país, e é um desporto legítimo. Deve ser apoiado como tal. Nesse aspecto, não me faz confusão nenhuma ouvir comentários em português.
Mas se a Sport TV quer que este formato funcione, terá de procurar entender melhor o que faz este produto funcionar, em vez de simplesmente colocá-lo na grelha na qualidade de grande atracção, meter comentários em português e esperar milagres. A Coca-Cola não vende, só porque tem gás, ou porque sabe a xarope doce.
A iniciativa é boa. Daqui, resta agora uma boa execução.