Wednesday, January 04, 2006

Não é para todos...

Quantas e quantas vezes não tentamos nós, fãs de wrestling, explicar a amigos, família e conhecidos o porquê da nossa paixão/amor/apreço (depende da pessoa) por este desporto? E quantas vezes não se torna esta uma tarefa frustrante?

Já me deparei com N situações parecidas. De todos os meus amigos e família, só dois realmente são malucos como eu e outros três seguem os programas com algum interesse, mas em jeito de passar tempo. Estão actualizados quanto aos desenvolvimentos na "realidade Radical" (expressão essa que uso para a cronologia que seguimos na Sic Radical), mas no fim de contas, o desporto de eleição que levam nos corações é outro. E todos nós sabemos qual é o desporto nacional de preferência.

Mas sem dar grande bola ao dito cujo, cinjamo-nos ao assunto em mãos.

O objectivo deste post não é desvalorizar o mérito que cada profissão arriscada merece (seja-se polícia, médico, bombeiro, o que quiserem). O objectivo, é, sim, elucidar o público menos informado quanto a esta. Nenhuma profissão é perfeita ou desprovida dos seus males. E há profissões que, sem dúvida, são mais perigosas para a saúde que o wrestling. Mas pretendo, por este meio, apresentar-vos alguns factos desconhecidos - a vós, leitores integrantes do público menos familiarizado com este ramo.

O Vince McMahon, big boss, Presidente e dono da WWE, visionário máximo e génio criativo (isto já nas palavras do mesmo), utiliza frequentemente a expressão "percepção é realidade". Ao passo que compreendo os motivos pelos quais a usa (se o produto dá mau aspecto, a empresa está mal, ponto final), ouso dissecá-la e discordar com a mesma - pois a percepção do público "de fora" não é a realidade.

Percepção: "é tudo a fingir, eles ganham bem, são famosos... do que se queixam? Qualquer um faz isto".

Realidade: é tudo encenado, sim - mas duplos de cinema, por exemplo, também se magoam em circunstâncias encenadas. Segundo as leis da Física, uma queda de cinco metros de altura em chão de betão, magoa. O corpo não foi feito para suportar o imenso castigo que sofrem cada vez que caem de costas no tapete (equivalente a uma pancada de um carro a 30 km/h). Experimentem cair de costas repetidamente durante pelo menos 10 minutos um total de 240 dias por ano. Para nosso entretenimento pessoal e para bem de manterem aquilo pelo qual trabalharam durante anos e tanto desejam manter, muitas vezes vão para o ringue com lesões, magoados - e são tão bons no que fazem que nem damos por isso. Para não falar que férias, nem vê-las. Não há épocas mortas para ninguém, como as equipas de futebol têm, a não ser que estejam em casa a recuperar de uma lesão grave. Não estranham que o mesmo lutador esteja na televisão semanas a fio, durante períodos de mais um ano? Eu não estranho; afinal, toda a programação é gravada semana após semana, 52 semanas por ano. Além de que não é raro ouvir falar de ligamentos de músculos rompidos, ossos fragmentados e pescoços partidos. Sim, é entretenimento elaborado ao máximo - mas que não haja ilusões: um lutador corre risco de vida sempre que entra no ringue para combater. E já muitas carreiras foram terminadas e vidas ceifadas neste ramo em que parece tudo tão fácil... e falso.

E isto é limpar o pó a uma superfície com muitas camadas. Não esquecer a fadiga mental: voos longos com muitas horas de espera, horas de viagem em carros de cidade para cidade (ambos os factores também ajudam ao cansaço físico - e não haja ilusões; são eles que guiam centenas de quilómetros após cada espectáculo), o estar longe da família durante períodos muito longos de tempo (ao ponto de sacrificarem momentos familiares importantes em prol de trabalho como o nascimento de um filho), a preocupação constante com o estar em forma (pois este é um ramo que não perdoa a ninguém, e a estética e aspecto visual é tudo no show business) e mais desconhecido ainda... as guerras políticas dos bastidores (todos querem brilhar, mas alguém tem de ficar para trás) as ocasionais facadas nas costas de quem está no topo e fundo da hierarquia, e as guerras políticas na procura de protagonismo.

Pensemos, por exemplo, num ex-lutador de nome Nathan Jones, que cumpriu 10 anos de prisão numa penitenciária de alta segurança por crimes cometidos e que não durou um ano no wrestling porque "estar na choldra era mais fácil que isto".

É uma forma de entretenimento naturalmente mal compreendida - mas nunca é tarde para compreender que a percepção não é a realidade. E nós, fãs, teremos todo o gosto em explicar o que mais se passa para além do que vemos na televisão. Fá-lo-emos com gosto, porque fãs deste belo desporto com milhões de seguidores pelo mundo fora nunca são demais.

Para quem já é fã, sabe que o espera um bom espectáculo. Para quem não é... não é tarde para aprender que a percepção não é realidade. Sim, é paixão - mas envolve sacrifícios à mesma.

Decididamente, wrestling não é para todos - e só os melhores se aguentam.

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